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Mad Men 7×08: Severance


Afinal, o que é viver a vida?


Mad Men é uma série naturalmente filosófica. Ao se aproximar de seu fim, é natural que passe a colocar seus personagens em posição cada vez mais questionável, como uma forma de encaminhá-los para um fim digno de suas histórias. Nesse momento, Matthew Weiner pode ser o grande showrunner que é, evitando focar sua produção apenas em seu protagonista, sem deixar de criar o estudo de personagens que concebeu ao longo desses anos. Assim, Severance, início da segunda metade da temporada final de Mad Men, não apenas coloca Don Draper em posição crucial para seu fim como acertadamente apara pontas para outros personagens importantes.


O episódio, escrito pelo próprio Weiner e dirigido por Scott Hornbacher, se foca em importantes acontecimentos na SC&P. O primeiro, envolvendo a escolha de garotas para uma propaganda, traz à tona a lembrança de Rachel Katz por parte de Don. Após sonhar com sua ex-amante, ele descobre que esta morrera há alguns dias. Enquanto isso, Peggy e Joan tentam agradar seu cliente, a Topaz, ao levar suas meias-calças a lojas de departamentos, mas enfrentam uma série de preconceitos no processo. Ainda na agência, Kenneth questiona o valor de seu trabalho enquanto seus chefes na McCann Ericsson também o fazem.


É interessante que Kenneth ganhe certo destaque em Severance. Outrora de suma importância, o personagem perdeu grande parte de seu valor nos últimos anos. Assim, embora soe repentino o fato de Mad Men retomar seu lado escritor nesse momento, esse tipo de questionamento é exatamente o que dispara o tema central por trás do episódio. Não por acaso, é sua demissão que dá título ao episódio (separação). É verdade que todo o cenário montado para isso soa conveniente por ser harmonioso demais com as tramas de outros personagens, mas isso não prejudica a narrativa, conduzida com primazia por um inspirado Hornbacher.


Aliás, embora Kenneth não chegue a ter diálogos relevantes com Peggy, seus questionamentos sobre sua vida profissional se aplicam perfeitamente a ela. Mas enquanto o antigo gerente da SC&P dirigia suas dúvidas exclusivamente ao trabalho, para Peggy isso se aplica à como ela conduziu sua vida pessoal ao longo dos anos. Assim, se sua ameaça de fuga para Paris soa como algo completamente diferente do que a personagem faria em situações normais, a atitude é facilmente explicada a partir do momento em que ela se dá conta de que suas escolhas não a levaram exatamente a algum lugar relevante.


Mais do que isso, é curioso como Mad Men procura explorar seu universo como um incômodo ciclo vicioso. Se há muitos anos víamos Peggy como uma mulher disposta a romper o paradigma machista da época, é sintomático a vermos desprezar qualquer tipo de vanguardismo ao rejeitar sexo com um homem que acabara de conhecer (“Já tentei ser moderna”). O mesmo se aplica à situação que vemos Joan passar, sendo humilhada por seus companheiros da McCann Ericsson simplesmente pelo fato de ser uma mulher bonita. Uma interessante crítica social ao fato de que, mesmo mais de dez anos depois do início da história, as mulheres continuam tratadas, em essência, da mesmíssima forma.


Mas, voltando às indagações promovidas por Kenneth, é seu diálogo com Don logo após sua demissão que provoca no protagonista questionamentos importantíssimos. Severance tem como cena de abertura uma série de primeiros planos que sugerem intimidade sexual entre Don e uma mulher. A forma como a série demora a revelar se tratar de uma audição para um comercial é exatamente o que dá o tom do episódio no que tange a Don. Assim, se por um lado o vemos retomar seu lado conquistador que víamos há muitos anos, é impossível não percebermos como, dessa vez, Draper soa apenas como uma sombra do que fora. E Severance faz questão de nos lembrar disso, o atirando ao lado de diversas mulheres durante os 47 minutos de exibição. Após a conversa com Kenneth, o episódio escancara os cacos emocionais em que Don se encontra após seu segundo divórcio.


Tudo isso nos leva ao momento em que ele sonha com Rachel. Ora, em um momento de questionamento sobre as escolhas da vida, é mais do que natural se lembrar de uma importante encruzilhada em que o personagem se encontrou, com sua amante mais marcante. Dessa forma, é natural que a triste morte dela e seu diálogo com sua irmã exponham Don e o coloquem em posição extremamente vulnerável. Assim como a cena que encerra o episódio, quando Draper tem, pela única vez, algum envolvimento emocional com uma de suas transas, o que cria um diálogo particularmente memorável.


Essa abordagem de Weiner é importantíssima para que o cenário final de Mad Men seja desenhado. Dada a natureza perturbada de Don Draper, não é estranho o pensamento de que o personagem precisará passar por um inferno emocional. Ao longo dos anos, o vimos passar por diversos momentos desse tipo, seja profissional ou pessoalmente. No entanto, é natural que o segundo divórcio traga muito mais problemas do que seu afastamento da SC&P. Aliás, Mad Men procura o tempo todo colocar Don exatamente nessa posição, separando o talento dele para propaganda de seu caráter dúbio. Isso tem ficado evidente nos últimos anos, e muito provavelmente será o mote para os episódios que darão fim para a série.


Por isso, é importante vermos que acontecimentos do passado, como o relacionamento de Don com Rachel, tem grande influência sobre o que o personagem é no momento. Da mesma forma, é particularmente belo o vermos deitado com uma série de mulheres sabendo que não há qualquer tipo de envolvimento emocional. O fato de Mad Men ser capaz de nos fazer sentir como o personagem é uma qualidade que a série sempre teve ao longo dos anos. Assim como a atuação de Jon Hamm continua excepcional, transmitindo cada gota da vulnerabilidade de seu personagem e sua incapacidade de se envolver com qualquer pessoa.


Esse tipo de reflexão é o que torna Severance um belo início para a jornada final de Mad Men. Também é o que dá a certeza de que a série fará uma falta inestimável.





Por: Série Maníacos

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