“Mal desceu do navio com seus botins brancos e a trança dourada, ele teve o pressentimento atroz que iam fazer juntos a sesta de muitos domingos.” Essa é a primeira descrição da personagem América, uma das amantes de Florentino Ariza, em Amor nos tempos do cólera. Mas a menina que leva o nome do continente inteiro pode passar despercebida quando pensamos em todas as referências à América Latina que existem nas obras do escritor. Afinal, revoluções, conflitos e amores tipicamente latinos brotam dos livros do colombiano, cujas histórias se passam geograficamente pelas bandas de cá.
É fácil achar semelhanças entre a história e cultura latina e os livros de Gabo. Macondo, a cidade de Cem Anos de Solidão, já foi descrita por críticos como uma espécie de microcosmo da América Latina. O povoado nasce com a instalação da família Buendía e cresce de forma organizada até a chegada dos primeiros estrangeiros. “Olhem a confusão em que nos metemos só por termos convidado um norte-americano para comer banana”, diz Aureliano Buendía em determinado momento da obra. Mas as semelhanças parecem ir além da exploração capitalista. A cidade imaginária é cenário de 32 revoluções, conflitos, romances e uma série de acontecimentos extraordinários – de levitações até nuvens de borboletas.
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Nessa perspectiva, o extraordinário é um dos elementos fundamentais na criação da América Latina de García Márquez. É o realismo mágico, movimento literário dos anos 60 e 70 do qual fazem parte, além de Gabo, figuras como o uruguaio Julio Cortázar e o venezuelano Arturo Uslar Pietri. “Esse movimento causou um boom na literatura latina, um maior conhecimento dela. E tinha uma direção certa: construir um lugar com essas características, ou seja, mágico, onde a realidade sempre apresenta um elemento a mais que é dá ordem do sobrenatural”, explica Rômulo Monte Alto, professor de literatura hispânica da Faculdade de Letras da UFMG.
A inspiração para os eventos fantásticos é reforçada pelo próprio autor. “Tenho a impressão de que os seus leitores europeus costumam perceber a magia das coisas que você conta, mas não vêem a realidade que as inspira…”, diz Plínio Apuleyo Mendoza, amigo do escritor, em Cheiro de Goiaba, livro que registra conversas dos dois.
“A vida cotidiana na América Latina nos demonstra que a realidade está cheia de coisas extraordinárias. Costumo sempre citar o explorador norte-americano F. W. de Graff, que no final do século passado fez uma viagem incrível pelo mundo amazônico, onde viu, entre outras coisas, um arroio de água fervente e um lugar onde a voz humana provocava chuvas torrenciais”, responde García Márquez ao amigo.
Como não poderia deixar de ser, a América Latina foi tema do discurso de Gabo na premiação do Nobel de literatura, em 1982. A fundação, reconhecendo o envolvimento do escritor com sua terra, atribuiu o prêmio a García Márquez por causa “dos seus romances e contos, em que o fantástico e a realidade combinam em um rico mundo imaginário, refletindo a vida e os conflitos do continente.”

Mas se a leitura das obras de Márquez usando a chave do realismo mágico é recorrente e até estimulada, outras perspectivas também são possíveis . “Eu acho que é uma leitura estereotipada você pensar que a América Latina é um lugar em que as coisas começam e não terminam, onde os amores tendem sempre ao fracasso, onde as revoluções acabam em governos totalitários conservadores. Se você olha a partir dessa ótica, você começa a entender que a América Latina é um lugar necessariamente caótico”, diz o pesquisador Rômulo Monte Alto, pra logo completar que é um problema dessa leitura, não daquilo que García Márquez escreveu.
“A ideia de uma terra mágica está em oposição a uma terra civilizada. Uma terra civilizada tem leis. Uma terra não civilizada tem magia e superstição. Se você usa essa chave de leitura em Memórias de Minhas Putas Tristes, por exemplo, você vê o livro ou como uma denúncia à prostituição infantil ou um incentivo a essa. Eu prefiro a leitura que coloca essa obra apenas como uma história de amor.” Para o professor, que tem Cem Anos de Solidão como seu livro preferido, as histórias de Gabriel García Márquez podem até acontecer geograficamente no continente, mas elas vão muito além de seu lugar de origem. “Os relatos dos livros acontecem na Colômbia, mas podiam acontecer na África, na Dinamarca, na Ásia, em qualquer outro lugar do planeta”, diz.
Fato é que as histórias de García Márquez – e sua terra mágica – ganharam o mundo. Cem Anos de Solidão é um clássico da literatura mundial. Foi apontado durante IV Congresso Internacional da Língua Espanhola, realizado em 2007, como o segundo livro mais importante da literatura hispânica, atrás apenas de Dom Quixote.
Gabriel García Márquez é clássico e pop ao mesmo tempo. E pelo menos isso parece certeza: ele é um dos grandes escritores latinos da história. “A pior coisa que pode acontecer a um homem que não tem vocação para o êxito literário, num continente que não está preparado para receber escritores de êxito, é que seus livros sejam vendidos como salsichas. Detesto me transformar em espetáculo público,” revelou Gabo, em Cheiro de Goiaba. Já era tarde para reclamar.
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