Flexibilidade vale muito mais que dinheiro

O assunto nas mesas de bar é quase sempre igual: demissão. Mesmo no meio da crise, mesmo com a baixa perspectiva de recolocação no mercado de trabalho, muitos dos meus amigos e vários conhecidos sonham com o dia que em que entrarão na sala de seus chefes e dirão que não querem mais fazer parte daquilo tudo.

E vários deles vão além do sonho. Já começaram a juntar dinheiro para aguentar os meses de readaptação, já repensam o orçamento, cortam gastos e traçam planos e projetos que permitirão que o dinheiro continue entrando mesmo após a saída da empresa. Quase todos garantem que o dia da demissão vai chegar. E não tardará. E isso sem falar daqueles que já passaram por esse processo, saíram de bons empregos e repensaram a vida profissional – eu estou neste segundo grupo.

Em todos os casos, sem exceção, o motivo é o mesmo. E a infelicidade profissional. Gente que trabalha nas maiores empresas da área, que tem bons benefícios, salários compatíveis com a carreira e idade, mas é profundamente infeliz, pelo menos na carreira. O problema é que o danado do emprego toma pelo menos oito horas diárias, sem contar o deslocamento, então ser infeliz na profissão significa ser infeliz durante a maior parte do dia. “A tristeza começa quando estou no metrô, a caminho do trabalho, e só acaba quando volto para casa”, diz um. “Não suporto nem estar ali, me dá uma vontade absurda de chorar”, diz outra.

Todos querem tempo. E topam ganhar menos para alcançar isso. Não querem passar o dia inteiro no escritório; sonham em ter tempo para os amigos, filhos, parentes, cachorro, gato, enfim, para eles mesmos. O mantra perseguido por todos é a tal da flexibilidade. Poder montar seu próprio horário de trabalho, não ter a obrigação de ficar oito horas no escritório, sentado na frente do computador, mesmo que a demanda profissional do mais duro dos dias, com toda a procrastinação possível, não passe de quatro ou cinco horas realmente produtivas. São prisioneiros, pessoas que torcem para o dia acabar, para a semana acabar, para o mês acabar, até que chegue o melhor mês do ano, o das férias. E assim, entre meses de sofrimento e 30 dias de alento, torcemos pela aposentadoria.

Como muitos dos meus amigos são jornalistas, vejo outro fenômeno comum, mas que não sei dizer se está limitado a esse campo profissional. Não tenho um amigo sequer que pretenda continuar trabalhando com jornalismo nos próximos anos. Trabalho na redação de algum veículo tradicional? Nem pensar! Emprego que tenha plantão aos finais de semana e direitos trabalhistas repetidamente desrespeitados? Não quero. E foi assim que muitos dos meus colegas deixaram a área profissional para qual foram treinados, durante anos, para assumir. Num grupo de 20 amigos e conhecidos que se formaram comigo e começaram a carreira trabalhando em redações, acho que só dois ou três ainda continuam nesse caminho. Mas até esses prometem sair.

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tempo é mais importante que dinheiro

Comigo não foi diferente. A insatisfação profissional começou em 2010, época em que eu trabalhava numa emissora de TV, em Belo Horizonte. A empresa, para os padrões de meus pais, avós e tios, era ótima, mas não me lembro de ter sido tão infeliz profissionalmente em nenhum outro lugar. Eu passava a maior parte do tempo sem ter nada para fazer, o salário não era dos melhores, não via perspectiva de crescimento – e se via o caminho não era na direção que eu gostaria de seguir – e não tinha qualquer desafio além de não surtar ao entrar no escritório da firma. Surtei várias vezes.

Depois de muito relutar, resolvi dar um tempo do trabalho e viajar pelo mundo. Vendi meu carro, juntei todo dinheiro que consegui e passei meses fazendo frilas e até trabalhando num segundo emprego, num cursinho de inglês. O quanto eu odiava trabalhar no meu emprego principal ficou claro ali: logo comecei a gostar mais do trabalho no cursinho, onde eu ganhava um salário mínimo, que do meu trabalho dentro do jornalismo.

Viajei, voltei e tive um choque de realidade. Era preciso voltar para o mercado de trabalho. Logo surtei novamente. E pedi demissão. Três vezes em menos de dois anos, sempre pelo mesmo motivo – eu era infeliz num trabalho que não me desafiava e sentia que estava apenas perdendo horas preciosas de vida. Foi nesse momento, lá em 2013, que este blog, então um projeto paralelo, virou uma profissão de três jornalistas. Empreender foi a saída para minha infelicidade profissional porque não encontrei uma única empresa que tivesse um modelo de trabalho minimamente parecido com aquele em que eu acredito, em que a felicidade dos envolvidos pesa até nas pequenas decisões. Em que o escritório não é uma prisão, mas liberdade.

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flexibilidade no trabalho

Já contamos essa história várias vezes aqui no blog e, por mais que isso tenha dado certo no caso do 360, sou o primeiro a dizer que essa – viver de um blog de viagem – não é a saída para todo mundo. E, das saídas existentes, passa longe de ser uma das mais fáceis. O movimento do “largue tudo para viajar”, que tomou a internet a partir de 2012, mascarou uma questão importante. A maioria das pessoas não queria largar o emprego para viajar, mas porque estava insatisfeita. Uma multidão que sonhava em largar seus empregos porque seus empregos eram ruins. Nada mais.

E não pense que o problema é, como já ouvi várias vezes, que essa geração é mimada, acha que merece a vitória e, ao se deparar com as dificuldades do mercado de trabalho, faz birra e resolve torrar o dinheiro dos pais pelo mundo. Não. O que muita gente dessa geração quer é satisfação profissional e mais tempo, mesmo que para isso tenha que ganhar menos.

E note que o “geração” aqui é uma parcela da população que sim, cresceu cheia de privilégios, ainda mais num país tão desigual como o Brasil. Mas por mais que passe longe de representar a maior parte da juventude brasileira, que ainda luta para pagar as contas básicas do dia a dia, colocar comida na mesa e só depois disso poderá realmente lutar pela felicidade profissional, os  jovens que agora chegam aos 30 e poucos e acumularam cursos, idiomas e experiências no currículo não deixam de ser um componente importante do mercado de trabalho.

Gente que não sonha em subir posições numa grande empresa, mas em ter uma vida simples, porém satisfatória. Gente que troca a carreira dos sonhos dos vinte e poucos pela tranquilidade dos 30. Que se descobriu feliz trabalhando com comida, embora seja formado em engenharia; cuidando de cachorros e gatos, embora antes fosse gerente de marketing de alguma multinacional; que resolveu fabricar cerveja, mas antes era servidor público.

Há alguns meses, conversando com profissionais bem mais velhos que eu, com carreira consolidada no mercado, esse assunto voltou ao centro das atenções. Eles – que tinham filhos com 20 anos e que já mostravam objetivos profissionais incompreensíveis para os pais – queriam saber como tinha sido o meu percurso. E voltou a mesma ladainha de sempre: as grandes empresas de hoje não querem profissionais com esse espírito livre, diziam eles, não querem nem ouvir falar de flexibilidade – a não ser, claro, que seja flexibilidade na legislação trabalhista, não entendem que as demandas dessa “geração” sejam válidas, afinal o mundo sempre foi assim, as pessoas sempre foram infelizes no trabalho. “Ou você acha que eu faço o que sempre quis?”, perguntou um deles.

Mesmo convivendo com esse assunto há anos, fiquei perplexo. Se chefes e gestores de grandes empresas assumem que tem um monte de gente que simplesmente não quer trabalhar para eles – ou que só faz isso infeliz e porque todo mundo precisa pagar as contas -, como é possível que ainda culpem a geração?

O mundo mudou e, nos mais variados sentidos, nada é mais como antes. O assustador não é o profissional que prefere ganhar metade do salário, mas ter tempo para ficar com a família, ler um bom livro e curtir a vida da forma que achar melhor. O assustador não é a advogada com mestrado e fluente em três idiomas, mas que recusa uma multinacional e prefere vender yakisoba na praça no bairro; não é o jornalista que, aos 30 e poucos, pretende abrir uma empresa e fazer pães e bolos, mesmo assumindo que abrir a próprio negócio consome muito tempo, mas pelo menos quem vai determinar a rotina será ele.

Não. O assustador é perceber que a maioria das grandes empresas escolhe fechar os olhos e dizer que todo esse movimento é birrinha geracional.

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Por: 360meridianos

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