Há algumas semanas recebi um convite daqueles que era difíceis de recusar: ir conhecer uma das aldeias históricas de Portugal. Eu já falei um pouco delas aqui nesse post, explicando que se trata de um conjunto de 12 vilas, que ficam perto da fronteira da Espanha, na região em torno da Serra da Estrela, muito antigas e feitas de pedra. Mas a visita era a uma aldeia muito especial: Belmonte é a vila onde nasceu Pedro Álvares Cabral. Além disso, lá também é um dos poucos lugares em Portugal que tem uma grande comunidade judaica, com uma história que remonta o período da Inquisição.
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Para começar o relato, acho importante pontuar o quanto foi legal ver a Serra da Estrela no outono. Eu estive lá em fevereiro, em pleno inverno e cheio de neve. Dessa vez, nada de gelo, mas muita folhas amarelas e cores especiais da estação. Sem dúvida, vale a pena programar a ida a Serra nesse período. Dá uma olhada nas fotos:
Mas voltando o foco a Belmonte. A terra natal de Cabral e sua família já era habitada desde a pré-história e também há indícios da presença romana na região. Desde 1398, o Castelo de Belmonte era administrado pela família Cabral, que era claramente muito poderosa. Mas foi no século 15 que Fernão Cabral, tornou-se alcaide-mor (ou seja, o principal administrador nomeado pela coroa) e transformou a antiga fortificação em residência. Esse era o pai de Pedro, que em 1500 liderou a expedição que descobriu o Brasil.
Ao percorrer as ruas da cidadezinha é possível observar parte dessa história. O castelo está lá, com suas muralhas e uma janela em estilo manuelino ainda visível. Também há outras atrações muito interessantes da época, como a Igreja de Santiago e o Panteão dos Cabrais, uma construção bem antiga, que era usada pela família e um mausoléu anexo, mais modernos, onde estão as cinzas de Pedro Álvares Cabral e seus pais.
O Castelo de Belmonte
Igreja de Santiago
Panteão dos Cabrais
Na pequena Capela de Santo Antônio, é possível ver o brasão da família Cabral, e também das famílias Queiroz e Gouveia. O antigo Solar da Família Cabral hoje abriga a Biblioteca e Arquivo Municipal. O Largo do Pelourinho e os Antigos Paços de Concelho também são construções de uma praça típica do século 15.
Antigo Solar dos Cabrais
Pelourinho e Paços de Concelho
Das construções mais modernas, há uma estátua de Pedro Álvares Cabral, que foi inaugurada em 1963 por ninguém mais, ninguém menos do que Juscelino Kubitschek, na época, presidente do Brasil. Mas a atração mais interessante para mim foi o moderno Museu dos Descobrimentos. Interativa, a exposição conta todo o processo das navegações portuguesas, assim como a descoberta da Brasil e o cruzamento das duas culturas. Além de ser muito bem montado e divertido, eu achei muito interessante ver a perspectiva portuguesa sobre o que todos nós estudamos nas aulas de história.
Belmonte e os Judeus Portugueses
A outra parte importante da história de Belmonte tem relação com os judeus. Eles habitavam o território português desde o período da reconquista, tendo um papel importante no comércio e enriquecimento das cidades. Só que a Europa cristã nunca gostou muito dos judeus. Por alguns séculos, eles foram obrigados a morar em bairros próprios, as Judiarias. Em 1492, a coroa espanhola ordenou a expulsão dos judeus de seu território. Ao mesmo tempo, o tribunal da Inquisição perseguia todos aqueles que se recusavam a converter a fé cristã. Com isso, muitos deles fugiram para Portugal.
Cinco anos depois, o novo rei de Portugal, D. Manuel, também impõe a expulsão da comunidade judaíca. Ao mesmo tempo, o rei não queria perder tantos habitantes do seu território e, com isso, decretou também a conversão forçada dos judeus. Foi assim que surgiu o conceito de cristão-novo. Em Belmonte, a comunidade judaica, mesmo sendo convertida, manteve suas tradições da religião original (ficando conhecidos como criptojudeus). Escondiam sob os olhos do público, mas conseguiram manter por quase 500 anos sua convicção religiosa através de casamentos e rituais passados de mãe para filhos.
Mesmo quando a Inquisição em Portugal apertou o cerco contra os cristãos-novos, eles mantiveram seus ritos e relações sociais. Foi somente em 1989 que essa comunidade regressou abertamente ao Judaísmo, fundando a Comunidade Judaica de Belmonte. Em 1996, foi inaugurada a sinagoga oficial da cidade e em 2005, o Museu Judaico de Belmonte. A visita é certamente mais interessante com as explicações de algum dos guias do museu, que explica a história.
Dica de Restaurante em Belmonte
Para completar o passeio, almoçamos no Casa do Castelo, um antigo alambique que é um dos restaurantes mais tradicionais da região. Como éramos um grupo bem faminto, provamos dois pratos: o Bacalhau Assado na Telha (também conhecido como o melhor bacalhau que eu já comi em Portugal) e Segredos de Porco (que é tipo a barriga do porco cortada em petiscos e servido com batata frita e purê de couve-flor).
O restaurante fica no Largo de Santiago, em frente ao Castelo de Belmonte. Os pratos custam em torno de 10 euros.
O passeio foi organizado pelo pessoal da Simply b, uma agência que promove tours personalizados e temáticos por Portugal. Vocês podem conferir mais informações sobre os roteiros no site oficial.
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Por: 360meridianos
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