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A banheira na cozinha e outras histórias de um apartamento em Berlim

“Vou guardar essa panela na banheira”, disse a dona da casa onde estou temporariamente morando em Berlim. Tínhamos acabado de jantar, rido muito das diferenças culturais e idiomáticas entre Brasil e Alemanha e estávamos organizando a cozinha antes de  dormir. Quando eu ouvi a frase escrita acima, pensei que tinha escutado a palavra “bathtub” errada, que talvez ela tinha falado uma palavra em alemão. Mas ela abriu a porta e colocou a panela dentro da banheira.

Eu soltei um gritinho de susto e comecei a rir, incrédula – aposto que qualquer um de vocês teria a mesma reação se visse uma panela com restos de comida indo parar na banheira. As irmãs alemãs então devolveram para mim o olhar de incredulidade e me perguntaram do quê eu estava rindo. “Você realmente falou que ia guardar a panela na banheira!” – disse eu entre risos.

“Oras, claro. Por que não?” – ela respondeu. “É frio”.

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Uma imagem meramente ilustrativa para simbolizar o frio do banheiro

De fato, o argumento de que era frio era a mais pura verdade. Naquela semana, as temperaturas na rua estavam negativas e caiam mais ainda durante a madrugada. E eu e o banheiro desse simpático apartamento em Berlim já tínhamos um histórico de desentendimentos, mesmo antes de eu me mudar para cá.

Tudo começou quando, depois de me enviarem fotos do apê e até uma planta da disposição da casa, as irmãs inquilinas foram fazer o contrato de aluguel pelas semanas que eu passaria aqui. Na Alemanha, já tinham me avisado, essas coisas são super certinhas. Não tem essa de acordo de boca. Então, quando me mandaram o contrato para eu ler e assinar, eu notei uma coisa curiosa: na descrição do apê estava a quantidade de quartos, a cozinha, o sótão e até quantos e quais os móveis do quarto. Mas na parte de banheiro havia um enorme número 0.

Fui conferir na parte em alemão do contrato, mas também tinha um zero em frente de “Badezimmer”. Já começando a imaginar a furada em que tinha me metido, fui conferir a planta da casa que estava no email. Aparentemente, tinha sim um banheiro, mas a semente da dúvida estava plantada na minha cabeça. Ainda mais porque no mesmo dia vi um anúncio de apartamento de um conhecido em Berlim que dizia que o lugar não tinha banheiro.

Esfregao banheiro no exterior

E eu achando que meu pior caso com banheiro no exterior foi do dia que eu alaguei o banheiro em Coimbra

Meio chocada com a possibilidade, escrevi para elas: “Tem uma coisa estranha no contrato. Está escrito que não tem banheiro na casa. Eu acho que é um erro de digitação, certo?” E rezei por uma resposta positiva.

Felizmente, ela veio com a explicação que não havia um banheiro oficial no apartamento. Mas uma banheira num pequeno quarto, acessível pela cozinha, e um toalete num quarto separado. A tal magnífica obra de engenharia havia sido feita pelos residentes anteriores, não pela empresa dona do apartamento, e, por isso, não podia ser incluída no contrato.

Várias semanas depois, quando finalmente me mudei, fui conhecer o tal “banheiro”. Bem, imagine uma cozinha. Caminhe por ela, passando pela geladeira, fogão, armários, mesa. No final, perto da janela, há uma porta branca. Você abre essa porta branca e dá de cara com uma banheira. Não há qualquer espaço entre a banheira e as paredes do minúsculo cômodo. Uma enorme janela fica ali, bem em frente.

Depois de conhecer o banheiro gambiarra, eu perguntei para as irmãs alemãs por que diabos alguém faria um apartamento sem espaço para banho e as outras necessidades fisiológicas humanas. Elas me explicaram que esse era o modelo dos apartamentos antigos, na época do pós-guerra. Eram apartamentos pensados para grandes famílias de trabalhadores, com o objetivo de economizar o máximo possível. Nesses prédios, antigamente, os banheiros eram coletivos e ficavam no térreo.

banheiros no mundo

Foto: Shutterstock

Agora que você já imaginou a situação dos meus banhos, podemos voltar para a explicação do caso da panela na banheira. Como o espaço é diminuto, tem uma janela enorme e nenhum aquecimento, obviamente o cômodo da banheira vira um freezer à noite. Um lugar perfeito para deixar os restos de comida numa panela que não não cabe na geladeira. Toda a lógica está sim, ali. Mas era preciso fazer parte do contexto para compreendê-la.

E antes que vocês me perguntem, não, ainda não deixei umas cervejas na banheira para ver se elas gelam também. Eu não confio no frio do banheiro tanto assim.

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Por: 360meridianos

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